“Maria, eu tenho um remédio aqui”. Eu já não suportava mais a voz do Matheus na minha cabeça, é claro que ele teria remédio, até porque era uma das formas que ele usava para puxar assunto com as meninas. Meio estranho né. Mas até que funcionava. As três ultimas que ele ficou foi graças a esse remédio, ele chega oferecendo remédio e, segundo ele, elas acham graça “Elas me acham engraçado Maria, o que eu posso fazer?!” Eu já falei com ele mil e quinhentas vezes que o motivo era ele ser bonito e não as piadas.

O sinal toca e a Duda já tá me empurrando pra fora da sala. Ela disse que eu ter aceitado sair no meio de semana para ir ao shopping era um momento histórico e que deveríamos aproveitar ao máximo. O trânsito estava horrível, só achamos um restaurante às 14:00 e ainda tivemos que andar no mínimo 4km para chegar no BH e encontrar uma loja que tivesse uma sandália que combinasse com o vestido dela, “Tudo tem que ser perfeito, Malu!”.” Então que não tivesse deixado para ultima hora ”, pensei comigo mesma.

Depois de tanto andar resolvemos sentar na praça de alimentação para conversar um pouco. A Duda estava mega eufórica com a festa e me contou todos os detalhes várias vezes e justo quando abri a boca pra falar o celular dela tocou. Pelo jeito que atendeu deveria ser o Rafael, e já era a quarta vez, só nesse tempo, que o telefone dela tocava, mas ela tava “ocupada” demais pra atender.

Enquanto ela falava no celular, comecei a pensar, eu definitivamente não entendia a Duda. Ela era super atenciosa com o namorado e ele quando ligava parecia ser o cara mais apaixonado do mundo. Mas o que eu não entendia era como eles conseguiam fazer o namoro dar certo! A Eduarda vivia no meu pé, me chamando para ir em alguma festa, resenha, ou qualquer outro lugar que tivesse muita gente pra zoar, barulho e música alta. E o Rafael passava praticamente o dia todo com os amigos. Era churrasco, futebol, fogueiras, e de vez em quando ele ia em algumas festas que o Matheus tava, onde por sinal, se concentrava o maior numero de meninas por metro quadrado, e sendo assim, na minha opinião, esse não é um lugar muito “certo” pra um namorado apaixonado frequentar.

Fiquei esperando a Duda desligar o celular, mas quando olhei as horas já passava das sete, e eu já estava cansada e doida pra chegar em casa. Dei um jeito de ir embora e disse pra ela, alias, tentei dizer por que provavelmente ela não entendeu nada já que estava tão “concentrada” na conversa, que a gente conversava mais na aula.

Assim que cheguei, o Victor, meu irmão caçula, estava dando um show na sala de estar, ele disse que a mamãe não queria deixar ele ir dormir na casa do Guilherme, que, nas palavras dele, tem uma irmã mais velha “M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A”. Mas não era pra menos, na ultima vez que dormiu fora ele fez a nossa mãe buscar ele 4 horas da manhã porque tava com medo. “Mas dessa vez vai ser diferente, mãããe! Eu já tenho 10 anos!”. Sim. Ele disse exatamente a mesma coisa quando pediu para ir no shopping com os colegas e não conseguiu ficar longe nem por duas horas.

Quando consegui ir para o meu quarto deitei na cama e fui ouvir uma playlist nova que achei milagrosamente no celular do Matheus. Ele pode até ser convencido às vezes, mas é um amigo e tanto. Muitas meninas têm raiva dele por causa do jeito que ele tem de te fazer sentir especial. Ele é do tipo de pessoa que não consegue te ver triste e, mesmo que você não queira, ele vai te fazer sorrir. E, apesar todos sabendo que ele é assim, por causa disso, as garotas costumam ficar apaixonadinhas por ele…

Eu conheço o Matheus desde a infância. Mas foi quando eu estava na segunda série que nós começamos a conversar. Nessa época a professora costumava cobrar a tabuada da gente, pra ver se tínhamos estudado em casa e tal. Nesses dias eu já ia pra escola com vontade de voltar pra casa. Foi então que um dia ela resolveu me perguntar quanto era 72 dividido por 9. Nessa hora que eu chorei e não soube responder. Eu sabia a resposta de praticamente toda a tabelinha de multiplicação, mas só dela ter perguntado outra coisa foi como se tivesse mudado a matéria para trigonometria. Comecei a chorar (Sim. Naquela época eu ainda achava que as lágrimas resolveriam todos os meus problemas, aliás, até hoje eu acho isso às vezes). A professora mandou eu me acalmar e lavar o rosto. Ao sair da sala, o Matheus estava do lado de fora, pois já tinha respondido tudo. Quando me viu chorando ele veio conversar comigo.

_ Maria, porque você tá chorando?

Eu fiquei olhando pra ele com medo de falar alguma coisa, desatar a chorar novamente, e ele me achar uma boba. E então, meio que lendo meus pensamentos, disse:

_Maria, vou te falar uma coisa: Essa matéria daqui um tempo não vai prestar pra nada, na verdade vai, só que pra contar o número de namoradas que eu vou ter daqui dois anos.

Enquanto dizia isso ele ria com aquelas covinhas na bochecha (que por sinal sempre tive vontade de apertar) e olhava pra mim com tanta sinceridade que foi naquele dia que eu ganhei meu melhor amigo, aquele que me fez sorrir com apenas uma frase. Mas como nem tudo são flores passei a odiar matemática e por fim, decorei a tabuada de trás para frente. Tanto da multiplicação quando da divisão.

Fim da playlist, uma hora e meia de um bom gosto musical que eu não imaginava que o Matheus pudesse ter. Como tinha muitas que eu não conhecia, resolvi anotar o nome de algumas na ordem em que mais gostei.

  1. Afire Love – Ed Sheeran
  2. Dia especial – Tiago Iorc
  3. Far Away – Nickelback
  4. A drop in the ocean – Ron pope
  5. Lego House – Ed Sheeran
  6. All about us – He is we
  7. Amei te ver – Tiago Iorc
  8. Birdy – Skinny Love
  9. Lost Stars – Adan Levine
  10.  R. City – Locked Away ft. Adam Levine

Acordei e percebi que ainda estava de fone, a música soava tão calma que acabei pegando no sono (o que não acontecia há tempos). Relutantemente tirei os fones e fui me arrumar para mais um dia de “Só queremos o melhor para você”, se quisessem mesmo não me obrigariam a ficar 5 horas durante cinco dias da semana (às vezes seis) estudando uma coisa que eu odeio. Matemática. Não sei o que as pessoas pensam ao escolher cálculos na faculdade, tudo já vem pronto, você não pode criar nada, sentir nada. É lógica e mais lógica. Contas de duas folhas ou mais que chegam a um resultado sempre formado por uma sequência de dez únicos números 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.

Quando desci para a cozinha, todos já estavam na mesa. “Até você, caçulinha?!”. Dessa vez acho que realmente me atrasei. Peguei uma maçã e corri para porta. “Tchau, gente! Tô muito atrasada. Ah… e bom dia!”

Os três primeiros horários passaram bem rápido. Assim que deu a hora do intervalo resolvi ir conversar com o Matheus. Andei a escola toda até achar ele num cantinho com uma menina e, como já estava acostuma, resolvi chamar mesmo assim. Logo quando ele me viu começou a vir na minha direção. Acho que a garota que estava com ele não gostou muito dessa interrupção, mas que seja, fui uma ótima ajuda pra ele, já que a menina não era lá grandes coisas.

Depois de praticamente ter viciado na playlist dele, passei boa parte do dia com o fone no ouvido. Enquanto a gente conversava ele me perguntou o que eu tanto ouvia, e eu disse que era da play dele. “Dessa vez você me surpreendeu! Nunca imaginei que pudesse encontrar música boa nesse seu celular!”.

Assim que terminei de falar ele me abriu um sorriso que só ele tinha e disse: “Uai Maria, Obrigada! Só que as músicas são as mesmas, tem certeza que são minhas? Porque assim… você não costuma gostar do meu gosto musical. ’’

“São sim, ontem durante a aula peguei uma playlist sua, que tem músicas do tipo, Ed Sheeran, Tiago Iorc…”.

“Aaah essas músicas?! Quem me passou foi um amigo do segundo ano, mas não curti muito, você sabe, esse não é bem meu tipo de música.”

Na hora não pude acreditar. Matheus Henrique andando com pessoas de bom gosto?! Antigamente ele dizia que só aturava minhas músicas porque eu era a irmãzinha dele e porque eu não merecia o terrível castigo de ficar sem a amizade dele.

Dormi os dois últimos horários (aula de matemática), cheguei em casa trinta minuto mais cedo e aproveitei para conversar um pouco com a minha mãe. Ela não perdeu a oportunidade de me chamar atenção: “Maria Luiza, você tem que se dedicar mais a escola, todos os dias dessa semana você saiu atrasada e ainda dorme nas aulas da matéria que você mais tem dificuldade.” Calada estava, calada continuei, e então ela também continuou com o que estava fazendo: “Eu entendo que você não gosta, ninguém agrada de tudo, mas a vida não é feita só de música, livros e dança minha filha. Você tem que se esforçar mais agora para que você não se prejudique no futuro.”

Quando terminei meu lanche, me levantei para ir ao Studio e disse para minha mãe não se preocupar já que essa semana eu estava realmente meio desleixada com os estudos e expliquei que tava tendo muito trabalho pra fazer e que o final do ano estava se aproximando, ou seja, o festival de dança também. E como esse ano eu iria dançar um solo, tudo tem que estar metricamente certo.

O resto da semana foi bem cansativa, acabei tendo que me dedicar mais que o normal ao solo. Não sei o que estava acontecendo, mas eu não conseguia me concentrar. Sem contar que na semana seguinte eu tive prova na escola todos os dias e nem pude conversar com a Duda, já que a festa dela se aproximava e ela estava literalmente louca.

Na sexta feira antes do aniversário da Duda, ela nem foi na aula, estava super ansiosa com medo de que algo pudesse dar errado, ela não aceitaria nada menos do que o perfeito. A aula passou um pouco devagar sem ela lá, como era sexta, eu já tava cansada e doida pra chegar o fim de semana. Na hora do intervalo, comprei uma coxinha e fui procurar o Matheus pra conversar. Ele veio todo animado conversar comigo, disse que tava doido para que o sábado chegasse logo porque na festa ia ter um monte de ‘’gatinhas’’ que ele já tava de olho há dias.

Fiquei ouvindo ele falar e pensei comigo mesma pela milésima vez que o meu amigo não tinha jeito mesmo. Foi ai que ele começou a mudar rumo da conversa, falando que o amigo dele ia estar na festa. Eu que já nem sabia de que amigo ele tava falando, afinal, ele é cheio dos amigos, continuei meio que voando. Ai ele começou a falar: “Maria, você escutou o que eu disse? O meu amigo vai estar na festa!”.

_ Oi Matheus, escutei, mas que amigo?

_ Aquele lá que você curtiu as músicas dele, que estavam no meu celular.

_ Aaata, mas você surge com os assuntos do nada.

_ Que culpa eu tenho se você é lerda?! Mas enfim, amanhã eu apresento vocês!

Durante a noite me peguei pensando em como seria esse garoto. Hoje em dia é tão raro conhecer garotos que gostem de um tipo de musica mais “romântico”… fiquei pensando nisso tanto tempo que novamente nem me dei conta de quando peguei no sono. Acordei no outro dia pretendendo passar a manha e parte da tarde ouvindo minhas música e lendo, até dar a hora de eu ir pro salão, e me arrumar pra festa da Duda. Quando fui tomar café, percebi que meus planos de uma tarde merecida de descanso, estavam totalmente frustrados.

_ “Maria você já separou a roupa que vai usar na festa da Eduarda? Aliás, com que roupa você vai?” disse a minha mãe, me lembrando do que eu praticamente tinha esquecido de acrescentar a minha lista de ‘’afazeres’’.

_ Não mãe, tinha me esquecido disso, mas não tem problema, eu uso aquela saia que você me deu no natal, e aquela blusinha que a senhora gosta quando eu uso.

_ Como assim, Maria? É uma festa de 15 anos, e além de tudo é da sua melhor amiga, que por sinal está fazendo de tudo pra festa sair perfeita! Termina de tomar café e se arruma, vou no shopping com você pra ver se a gente acha algum vestido.

Obedeci imediatamente, porque tenho certeza que a minha mãe não iria aceitar meus argumentos, e também porque quando ela falou da Eduarda eu realmente vi necessidade de arrumar uma roupa melhor, porque a minha amiga era o tipo de pessoa que sempre queria tudo beirando a perfeição. Passamos a manhã inteira no shopping, e compramos um vestido que, eu tinha que admitir, era perfeito. Um pouco caro, mas era perfeito!

Quando chegamos em casa minha mãe fez um prato light como diz ela e então pude descansar durante meia hora. Acho que nunca me importei tanto com a minha aparência antes de sair, e até que eu estava ficando animada com essa preparação toda.

Afazeres:

Ir ao salão

Tomar banho

Me vestir

Me maquiar

(Esse quarto passo é óbvio que não sou quem vai fazer).

Cheguei do salão exatamente às 18:00 e já tinha ido de banho tomado, então estou com tempo de sobra. Assim que apareci na porta minha irmã foi logo me arrastando para dentro do banheiro: “É hoje que você desencalha, maninha!”. Não gostei muito do tom com que ela disse isso. Eu nunca namorei, admito, mas tenho só quatorze anos. Ok, quase quinze. Mas não me sinto uma tia encalhada de quarenta e cinco anos como ela sugeriu.

A Mariana acabou de fazer minha make duas horas depois. Mas não me deixou ver. Minha mãe e ela cismaram que eu só ia me olhar no espelho depois de pronta (nem a mulher do salão me deixou ver como meu cabelo tava). Sai do banheiro e fui até meu quarto colocar o vestido. E quando me virei colocaram um espelho na minha frente e… nossa… essa não era eu… Comecei a me analisar. Meu cabelo, que geralmente é liso, geralmente preso em uma trança, estava cheio de cachos nas pontas e a maquiagem realçou meus olhos de uma forma que eu nunca imaginei ser possível (já que eu sempre achei eles meio sem graça). O vestido que a minha mãe me fez comprar era preto, justo até a cintura e mais soltinho nas pontas. Fiquei impressionada em como ele me caiu bem, ficando ainda melhor do que quando experimente com pressa na loja já que agora eu estava com uma sandália preta que tinha um salto médio e me deixava um pouquinho mais alta.

Cheguei na festa um pouco depois que já tinha começado, e a Eduarda quase me matou por não ter sido a primeira a chegar. Ela estava linda, e a festa realmente estava perfeita, já no inicio estava tudo muito animado. Tinha tanta gente que eu não conhecia, a escola em peso estava lá, e não demorei muito a encontrar o Matheus que pelo jeito tinha sido o primeiro a chegar, que estava pegando um coquetel.

Assim que nos aproximamos ele me encarou de cima abaixo e soltou um: “ Maria…o que fizeram com você? VOCÊ TA MUITO GATA!” . O que me deixou um tanto quanto constrangida. Poxa, ele precisava ter falado tão alto? Senti meu rosto corar imediatamente, cumprimentei ele como de costume, e ele me chamou pra se juntar ao grupinho dele. Cheguei lá, e os meninos todos ficaram me olhando, geral comentando que eu ‘’finalmente tinha parado de me esconder dentro de casa’’, outros disseram que eu tinha que sair mais vezes e perguntaram ao Matheus porque ele não me levava nas festas. Fiquei me sentindo meio incomodada, eles estavam falando de mim como se eu nem estivesse lá! Resolvi então ir procurar as meninas da minha sala, apesar de não conversar muito com elas, eu preferia sair dali, porque os amigos do Matheus são meios…indiscretos demais pro meu gosto.

 

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